terça-feira, 30 de julho de 2013

Amarelo.

  Lúcia, que de Lúcifer não tinha nada. Nem derivação ou comparação. Lúcia, que era menina prudente, de fita no cabelo. Lúcia, que prezava a discrição e os bons modos. Lúcia, que mantinha seus botões bem organizados e seus cadarços bem atados.
  Lúcia, que era a menina dos olhos de seu pai. Lúcia, que era exemplo de carisma e sofisticação. Lúcia, tão bonita, de rosto tão delicado. Lúcia, de pernas bem cruzadas e vestido bem engomado. Lúcia, menina tão pura, flor tão delicada.
  Lúcia, que com seu rosto limpo desbancava qualquer modelo manequim. Lúcia, que morava no centro da cidade e não tinha medo de pegar o bonde sozinha. Lúcia, que ao levantar todas as manhãs organizava seus livros e limpava seus sapatos. Lúcia, que guardava o brilho dos olhos atrás de lentes finas e uma armação havana.
  Lúcia, que parecia manter sempre a cabeça erguida, acabou por tropeçar. E tropeçando, sem querer perdeu a compostura, ralou os joelhos, sujou seu vestido impecável e perdeu os óculos. Lúcia, que no chão desorientada, preferiu repousar cabelos louros nos paralelepípedos a ter que se erguer sozinha.
  Lúcia, desapontada com a falta de um cavalheirismo qualquer disposto a ajudá-la, resolve se pôr de pé. Lúcia, que ainda tonta, agora sem o brilho nos olhos enxerga tudo de forma diferente. Lúcia, que ainda apavorada com a visão crua de seus olhos nus, cambaleava tentando sair do olho do furacão.
  Lúcia, aquela formosura de menina. Lúcia, que sem perceber, transformou-se em duas. Partiu-se na metade mantendo-se no chão e erguendo-se ao mesmo tempo. A partir daí, pode finalmente provar o gosto frio desse mundo.