terça-feira, 14 de maio de 2013

Café.

  Ainda cedo, antes do Sol, já estava na janela. Mesmo com o frio e o vento cortante, gostava de ver o dia começando, as luzes nascendo. Aos poucos com os pássaros, logo em seguida com as pessoas, o dia ia se levantando devagar. Com a mesma preguiça do Sol em nascer, toma mais um gole, aquecendo-se por dentro. Sente o incômodo da barba por fazer e boceja.
  A noite anterior não fora nada fácil. É que ela tinha estado lá e já fazia algum tempo desde que concordaram não haver mais nada a ser dito. Voltou lá para buscar umas coisas, já que quando foi embora só levou o essencial. Roupas para ir trabalhar, alguns sapatos e poucos livros se apertaram dentro de uma bolsa antes da despedida. No armário ainda estava seu perfume favorito, seu vestido mais brilhoso e os saltos mais finos. As fotografias, maquiagens, roupas de festa. E era exatamente assim que ele gostava de lembrar dela: radiante.
  O que um dia lhe ardeu a pele de prazer, agora lhe ardia a garganta prendendo o choro. Um misto de arrependimento e solidão lhe apertaram o peito roubando um pouco do ar que o preenchia entre soluços. Já não podia voltar atrás, a decisão foi tomada e nada mais poderia mudar a situação. A essa hora ela já estaria longe o bastante para não escutá-lo quando ele a chamasse durante a madrugada. A esse momento, já não podia ter certeza de que Sábado à noite eles se encontrariam num bar ou se no Domingo de manhã ela traria o café na cama usando o blusão dele. Tanta incerteza, que o fez estremecer.
  Ainda na janela, reparou no Sol imponente trazendo calor ao seu quarto. Acendeu um cigarro barato e tentou tomar mais um gole. Infelizmente, assim como todas as lembranças e todo o calor dos corpos, ao passar de certo tempo, seu café esfriou.
  
  
  

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