quarta-feira, 6 de junho de 2012

Manoela

  - Para quebrar a calmaria, descalçar os sapatos, sentir a grama molhada.
  
  O vento morno dourando a pele e os olhos fechados atrás das lentes escuras. A falta dos cabelos compridos; a novidade que era a brisa beijando-lhe a nuca.
  Tudo num sopro pacífico, após todo o pânico. A única dor morava nas pernas, adormecidas sob o peso de seu corpo. Apesar de solitária, mantinha-se calma. Estava tranquila, sóbria.
  Sem palco, holofotes ou escadarias. Estava lá, sem nem mesmo saber onde "lá" ficava. Não se importava. Imóvel, assistindo as nuvens passearem acima de seu alcance, piscava lentamente.
  Enchia os pulmões de ar, sentia a dor agradável, e tornava a expelir tudo. Repetia o processo pacientemente, mantendo-se viva.
  Segurou um punhado de terra na palma da mão e foi soltando-o aos poucos. Devolvendo cada grão de volta ao seu lugar. Colocou as mãos suadas sobre os pés quentes, percebendo a primeira gota a escorrer de sua testa.
  Estava quente, e subitamente o acolhedor tornou-se libertador. Levantou-se com a coragem que nunca teve. Tirou os óculos e deixou-os caírem ao chão. Soltou as alças do vestido florido, incomodando-se com a nudez de seus seios. Livrou-se de tudo o que não fizesse parte de seu corpo, o rosto tomado pela vergonha.
  Era o calor. O calor, o Sol e sua vida se esvaindo. Corria, então. Corria para perder-se. Não era ela mesma, não era ela, não era, não... Calmaria demais, sobriedade demais, tranquilidade demais.
  O lago. Correu intranquila, até os dedos dos pés tocarem o primeiro fio d'água. Parou então, ofegante. Fitou seu reflexo por uns segundos. Reparou as mesmas marcas e cicatrizes abaixo do ventre e logo mudou o olhar de direção. O Sol desistira, estava se cansando... E ela também. Fechou os olhos, proibiu-se de respirar. Mergulhou seu corpo nu na água fria e foi se afundando até a luz laranja não existir mais.
  Tudo negro, submersa, apertava os olhos com medo. A dor nas têmporas já a matava, precisava de mais ar, mesmo tendo se proibido. Não respiraria, não desistiria, fraquejar não era opção.
  Abriu os olhos, e agora, constatava a real solidão.
  Soltando o ar aos poucos, viu-se inteira e completamente vazia. Abriu a boca, deixou-se invadir pela transparência da água. Ardendo, queimando, rasgando, sufocou-se de quase nada. Era quase nada, não via mais nada, já não sentia, inconsciente.

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