quinta-feira, 28 de junho de 2012

Calados:

  Meu corpo encolhido, tuas mãos procurando milagre. Um pouco mais encolhido, teus pés a procura de ar. Seus olhos fechados; abertos os meus. Uma lágrima, incontida, vai.
  Ao resto da noite, questiono a mim mesma, dos porquês e motivos. Que já não acho, já não sei. Que não é bruto. Que não sou. Que em teu colo, frágil. Eu sou. E sou só. Já que em teu colo, água sou. Sou algodão. Fina e transparente. Branca, um sopro fraco.
  Por sexo de poeta. Sussurros e carinho, em toques mornos, quase não toques. Lábios sem cor, olhos sem cor, cabelos sem cor, pele sem cor, unhas sem cor. Um corpo sem formas. Sem cor, cheiro, gosto. Quase vapor, é fumaça quase imperceptível, é alma quase crua, é fria.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Inconsistência

Bem solta, meio arranhada
Parou de rezar, me preocupei


- O mesmo filme do mês passado:
Ele está de costas, ainda cantando.
"Não se venda, não se ofereça."
Antes sua, agora nossa (preocupação)


Queremos assim, conturbado,
Proliferando o insosso mais uma vez.


Morena, não se magoe.
Não vale, não vale a pena.


Pois é, fugi, saí.
Não tenho mais onde morar.
E se seu lar não for aí, pouco importa,
Mantenha-se longe daqui.


Caindo de novo, ao contrário.
Pulmões treinados, ritmados
Só desejamos um dia feliz,
Regado à mansidão e alguma fumaça.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Manoela

  - Para quebrar a calmaria, descalçar os sapatos, sentir a grama molhada.
  
  O vento morno dourando a pele e os olhos fechados atrás das lentes escuras. A falta dos cabelos compridos; a novidade que era a brisa beijando-lhe a nuca.
  Tudo num sopro pacífico, após todo o pânico. A única dor morava nas pernas, adormecidas sob o peso de seu corpo. Apesar de solitária, mantinha-se calma. Estava tranquila, sóbria.
  Sem palco, holofotes ou escadarias. Estava lá, sem nem mesmo saber onde "lá" ficava. Não se importava. Imóvel, assistindo as nuvens passearem acima de seu alcance, piscava lentamente.
  Enchia os pulmões de ar, sentia a dor agradável, e tornava a expelir tudo. Repetia o processo pacientemente, mantendo-se viva.
  Segurou um punhado de terra na palma da mão e foi soltando-o aos poucos. Devolvendo cada grão de volta ao seu lugar. Colocou as mãos suadas sobre os pés quentes, percebendo a primeira gota a escorrer de sua testa.
  Estava quente, e subitamente o acolhedor tornou-se libertador. Levantou-se com a coragem que nunca teve. Tirou os óculos e deixou-os caírem ao chão. Soltou as alças do vestido florido, incomodando-se com a nudez de seus seios. Livrou-se de tudo o que não fizesse parte de seu corpo, o rosto tomado pela vergonha.
  Era o calor. O calor, o Sol e sua vida se esvaindo. Corria, então. Corria para perder-se. Não era ela mesma, não era ela, não era, não... Calmaria demais, sobriedade demais, tranquilidade demais.
  O lago. Correu intranquila, até os dedos dos pés tocarem o primeiro fio d'água. Parou então, ofegante. Fitou seu reflexo por uns segundos. Reparou as mesmas marcas e cicatrizes abaixo do ventre e logo mudou o olhar de direção. O Sol desistira, estava se cansando... E ela também. Fechou os olhos, proibiu-se de respirar. Mergulhou seu corpo nu na água fria e foi se afundando até a luz laranja não existir mais.
  Tudo negro, submersa, apertava os olhos com medo. A dor nas têmporas já a matava, precisava de mais ar, mesmo tendo se proibido. Não respiraria, não desistiria, fraquejar não era opção.
  Abriu os olhos, e agora, constatava a real solidão.
  Soltando o ar aos poucos, viu-se inteira e completamente vazia. Abriu a boca, deixou-se invadir pela transparência da água. Ardendo, queimando, rasgando, sufocou-se de quase nada. Era quase nada, não via mais nada, já não sentia, inconsciente.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cura, cuspe, culpa.

  Disse. Sou assim. Que completem meus buracos, preencham-nos. De atropelo em atropelo, espero que resolvam.
  Mas não são. Não o que deviam ser, o que me é necessário. Espaços e vãos muito escuros, ou muito extensos, até irreais. Assombrados e mal queridos por não satisfazerem.
  Habitam a alma, e assombram por não desistir. Assombram por insistir, por existir.
  A mesma caridade de teu suor já não me basta. Pele e boca, calor e toque; não me suprem só os teus.
  
"Amo-te com certo dó; um ar de arrependimento e prováveis súplicas de socorro".
  
  Feito rombos e gritos. Entre cômodos vazios, frios e sexo escorrendo pela ponta dos dedos. Distraída, sobre os pés molhados em cima da cama e meu cabelo embolado sobre teu peito. Sobre a mistura de tinta escura e lágrimas frias, secando juntas.
  Abismo em abismo, buraco em buraco, tentando amar-te com amor. Desejando teu mais puro suor por não suar. Tua sujeira incolor por não sujar. E tuas mordidas insípidas por frigidez. O desnivelamento do solo anda cortando-me os pés.
  Baixaria; tens-me rouca, então, insóbria.