quarta-feira, 2 de maio de 2012

Puro drama.

  Esse é meu palco, é esse meu show. Chego acompanhada por um único holofote solitário, sento na beira do palco, vestido azul e cabelo bagunçado. Um sorriso simpático à plateia e me faço puro silêncio. Encarando os expectadores como se quem expectasse o esboço de alguma reação fosse eu. A música começa, me deleito, me jogo, me deixo, sou. Sou a música. Sou a dança; estou entregue, vulnerável. É ritmo, é vida, harmonia, cada músculo arde com o prazer da libertação. 
  A música para. Mais silêncio. As luzes vermelhas, e barulho, tanto barulho... São batidas, são passos, são gritos, são ocos, sufocados. Me jogo no chão em tormenta, mãos nos ouvidos, olhos apertados, corpo contorcido e coração em agonia. Mas e o público, ninguém percebe? Não estava nada planejado, nada ensaiado. Venham me acodir, venham me socorrer! Rebelem-se, andem, levantem-se de seus assentos, tomem coragem e venham me livrar dessas feras silenciosas. Não é atuação, não é mentira, está ardendo, está cortando. 
  E agora há sangue. Sangue das minhas próprias veias, sangue da minha carne, que está a mostra. Jorro meu fio rubro de vida pra qualquer um da primeira fileira. O cheiro forte, o gosto salgado, a cor da morte; da vida. Minha cor. Jorro minha agonia, minha impureza, meu sangue e meus gemidos a todos os presentes. É de graça, minha graça, toda sua, só pra vocês. Aproveitem, quero gritos, gritos e palmas para minha decadência, minha morte, meu corpo agonizando, gemendo e se desfazendo em pleno desfoque da luz.
  Blackout. Cortinas se fecham, e tornam a abrir. Luzes amareladas, tantas flores pelo chão... São brancas as flores. Não há mais sinal de sangue, ou a fumaça que estava presa em meus pulmões. É fresco o ar agora. Só vejo o teto branco. Nada de céu azul. E quanto tempo se passou? Ainda estão me assitindo? É melhor sorrir... Mas mortos não sorriem, não conseguem. Perdi o controle. Estou presa, no corpo de uma defunta qualquer, morta pela minha própria arte, meu próprio tesão por estar no centro de tudo.
  Uma música calma, quase que morta também, comanda as sombras que embebem o corpo frio, mutilado. A alma se desprende, vai devagar, pisando em flores, o olhar baixo, a áurea fosca, chegando até o limite entre palco e queda, e muda, grita com os olhos, encarando cada um que se encontra sentado a sua frente. Desce do palco, vira as costas, e se dissipa em meio ao nada... 
  Chuva de aplausos; recém chegada, me entreguei, transformei e me permiti. Morri, ou talvez me matei, morta que era me deixei levar.

2 comentários:

  1. Na verdade não tinha associado ao filme, mas agora que reparei, faz sentido... Realmente lembra a cena da morte...

    ResponderExcluir