sábado, 26 de maio de 2012

Desprezo

"É sussurro demais e grito de menos."


  Me falta a intensidade. Há três semanas que não choro. Não esperneio. Não me rasgo. 
  Não como demais, nem de menos. Não corro urgente, nem me arrasto. Não me escondo ou bato no peito. Não me destaco, nem me ofusco. Estou morna. Puro equilíbrio. Que Diabo esse tal de equilíbrio! Mas tão ruim, tão ruim que não consigo me desvencilhar.
  Estou sorrindo, oh meu Deus, sorrindo! E essa não sou eu. Estou jogando muito fácil, muito limpo. Minha sujeira foi lavada e eu ainda permiti. Permiti com o mesmo sorriso do tal acinzentado no rosto.
  Não quero céu, nem inferno. Eu quero a eternidade entre eles. Mas não quero, não quero equilíbrio! Quero pender pros lados, escorregar, torcer os tornozelos. Sentir a dor, agonizar e gritar até que a garganta sangre. Chorar então, por duas dores.
  Quero o pecado sem beijo na testa depois. Quero fogo sem abraço pra amenizar as feridas internas. Quero gente errada, gente perdida, intranquila, me oferecendo as pílulas da insanidade. Quero ir ao ponto mais alto e despencar de lá de propósito. Cair com o rosto no chão quente, pra ter vergonha de ser o que sou. 
  Quero engasgar com minha própria ironia, e morder a língua depois. Quero o pano mais limpo, pra estender na minha parede e poder sujá-lo com todo o vômito de coisas escuras que comi sem sentir o gosto. Quero música pobre, de voz rouca e instrumento desafinado, pra esperar a noite chegar.
  Mas ando tão equilibrada...

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