sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ocre.


  Temo por quando me esqueço de esconder os papéis; prefiro que não os veja. O que lhe parece tinta e papel seco, é pra mim vida. É vida e morte ao mesmo tempo. É tentar matar um sentimento escrevendo-lhe, é tentar escorrer o fluido escuro e denso dentro de mim. É abdicar dessa melancolia pra redescobrir a vida.
  E tais palavras, talvez não tão pessoais em sua concepção, recitadas tão facilmente por  tua boca, me rasguem os olhos apenas quando lidas corridas pela mente. Eu explico demais, e até mais: ando paciente. E barata também. Estou pra qualquer um; sorrindo logo me tens. Quem sabe -e alguém há de saber- não seja isso a tal da carência, a falta de toque, a saudade de me olhar com cautela.
  Já houve tempo em que gritei por aí estar perdida, descalça e sem rumo, pisando em falso de propósito. Pois é bem aí em que me encontro. A sensação de desprendimento, de solidão e cegueira, não passa de... Sensação. E perdida, estou no ponto mais escuro de meu âmago me deleitando com as pequenas tímidas cócegas desse gosto amargo depois da noite marrom de ontem.
  Uma qualquer uma vez contou, alertou sobre certo desconforto áspero que poderia vir aparecer em minha garganta após tanta palavra gasta com o vento, com o nada. Mas e meu sub-eu? E o eu que não controlo? Não há de me escutar? Porque a solidão, nada mais é que ilusão. Há muito de mim em volta de mim mesma, me assombrando, arranhando e segurando a cada passo, a cada vez que inspiro.
  E liberdade, há de surgir por aí; espero apenas esbarrar nela na esquina mais próxima, sem medo de morar no fácil.

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