sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ocre.


  Temo por quando me esqueço de esconder os papéis; prefiro que não os veja. O que lhe parece tinta e papel seco, é pra mim vida. É vida e morte ao mesmo tempo. É tentar matar um sentimento escrevendo-lhe, é tentar escorrer o fluido escuro e denso dentro de mim. É abdicar dessa melancolia pra redescobrir a vida.
  E tais palavras, talvez não tão pessoais em sua concepção, recitadas tão facilmente por  tua boca, me rasguem os olhos apenas quando lidas corridas pela mente. Eu explico demais, e até mais: ando paciente. E barata também. Estou pra qualquer um; sorrindo logo me tens. Quem sabe -e alguém há de saber- não seja isso a tal da carência, a falta de toque, a saudade de me olhar com cautela.
  Já houve tempo em que gritei por aí estar perdida, descalça e sem rumo, pisando em falso de propósito. Pois é bem aí em que me encontro. A sensação de desprendimento, de solidão e cegueira, não passa de... Sensação. E perdida, estou no ponto mais escuro de meu âmago me deleitando com as pequenas tímidas cócegas desse gosto amargo depois da noite marrom de ontem.
  Uma qualquer uma vez contou, alertou sobre certo desconforto áspero que poderia vir aparecer em minha garganta após tanta palavra gasta com o vento, com o nada. Mas e meu sub-eu? E o eu que não controlo? Não há de me escutar? Porque a solidão, nada mais é que ilusão. Há muito de mim em volta de mim mesma, me assombrando, arranhando e segurando a cada passo, a cada vez que inspiro.
  E liberdade, há de surgir por aí; espero apenas esbarrar nela na esquina mais próxima, sem medo de morar no fácil.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Mais uma vez.

  Ah Daniel, tome mais cuidado da próxima vez! A menina chorava tanto... Os olhos borrados, as lágrimas sujando as bochechas e os lábios tremendo, cansados. Chorava sem motivo aparente. Sem motivo? Chorava por ti Daniel. O silêncio entre os soluços fazia parecer que ela estava tão longe... E se uma meia risada aparecia em meio ao choro, era porque ela estava com você. Nos pensamentos, estava em seus braços...
  Não posso afagar os cabelos de cada moça que você machucar. Não posso secar cada lágrima que for derramada por ti, e não posso Daniel, não vou viver à tua sombra para sempre. Você prometeu, ia tentar, não prometeu?
  Sabe, tem tempo que não te vejo... Que não te sinto. Que não te ouço brigar comigo por não dizer a verdade. E vou admitir que sinto saudades. Aquela pontinha aguda do "podia ainda ser eu" me espeta cada dia mais fundo. Fiquei esperando você voltar e você não voltou. Mas prometeu que não voltaria, então por que... Eu ando confusa, me confundindo. Talvez seja todo esse tempo seca demais. Todo esse tempo amarga demais. Me forçando a esquecer.
  Mas você Daniel, você é eterno. Eterno fixado no ontem. Está preso, registrado, guardado no que acabou de ficar mais pra trás. Vou te embalar, te embrulhar e colocar no fundo da caixa. Que é pra daqui algum tempo, poder te descobrir de novo.
 

sexta-feira, 13 de abril de 2012