domingo, 4 de março de 2012

Agonia.

  O coração confuso, confuso... 
  Entrou no banheiro, trancou a porta atrás dela, apagou as luzes sem querer e encostou as costas nuas na parede fria. Bagunçou o cabelo e fechou os olhos. Respirou fundo e aquele mesmo nó insistente queimou sua garganta. Foi escorregando aos poucos pela parede, tentando se apoiar, e finalmente caiu sentada no chão úmido. Apoiou a cabeça entre os joelhos e sentiu os olhos pesados, magoados. A dor nas têmporas não passava e o chão embaixo dela girava. Quantas doses? Seis? Sete? Quantas pílulas? Oito? Nove? Já não sabia mais...
  Se arrastou até o box e caiu por lá mesmo. Se esticou para tentar alcançar o chuveiro, mas não conseguiu se manter de pé e caiu novamente. A água gelada castigava suas costas marcadas pelas unhas. O cabelo maltratado colava em seu rosto tirando mais ainda seu ar. A água fria se misturava com a morna de seus olhos e ela se afogava em suas dores. Já tinha se tornado físico. Doía de verdade. Agora doída porque ela queria sentir a dor. Doía porque não havia mais sentido viver sem dores reais. Doía porque precisava de alguma verdade em sua vida. Algo verossímil para sentir. 
  Quanto tempo já estava ali, no escuro, se afogando em êxtases que só a tortura a proporcionava? Mais ainda, há quanto tempo não saía para ver a cor no rosto das pessoas? Quanto tempo já fazia, que não corria com os olhos fechados sentindo o calor invadir seu peito? Quanto tempo tinha que não comia algo realmente doce? Quanto tempo se passou desde que foi beijada pela última vez? Quanto tempo tinha desde que qualquer pensamento são passou por sua cabeça? Não discernia realidade de fantasia.
  Era tudo tão distante... Já tinha se passado tanto tempo... Ela tinha morrido. É, morreu e não sabia. Tentava matar alguém que já não vivia mais. Tentava matar as antigas lembranças se sujeitando a excessos e cortes profundos. Queria substituir uma dor por outra. Estava morta, enterrada no passado, mas continuava tentando se acabar. Não percebia que aqueles olhos não eram os dela. Aqueles desejos não pertenciam a ela. Não percebia que aquele corpo caído na poça do banheiro não guardava a alma dela.
  Morreu, morreu e não percebeu. Agonizando, se arrastando para tentar respirar. Deitou sua cabeça num canto molhado e revirou os olhos em agonia. Estava fazendo efeito. Estava funcionando. Uma dor forte, muito forte na cabeça, um pânico a tomava por não conseguir se controlar. Uma pressão imensurável, agonia pura correndo por suas veias. As paredes giravam a sua volta, tudo fosco, as cores borradas e misturadas, e a impotência de não conseguir nem gemer.
  Subitamente, um clarão, e depois, tudo preto.

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