sábado, 31 de março de 2012

Tanto

  Eu quero uma banheira. Quero uma cama baixa e muitos quadros. Livros empilhados e fotos coladas nas paredes do corredor. Manchetes de jornal que me lembrem você. Pedaços de papel presos na porta do armário, com bilhetes quem me façam rir de manhã. 
  Um apanhador de sonhos na janela e rabiscos na porta. Trechos de músicas e poesias pintadas nas paredes da sala. Chinelos grandes demais e shorts curtos. O mesmo blusão sem nada por baixo e mais um dia frio. Banhos com as luzes apagadas e os espelhos fora do lugar.
  Quero romances foscos, saídos do meu projetor. Um copo de café bem amargo e biscoitos sem açúcar num pote de vidro perto da câmera que você esqueceu de propósito. As fotos coloridas escondidas numa caixa. Calendários antigos ainda nas gavetas e cartas seladas embaixo deles. Chaves no balcão de madeira e velas meio derretidas.
  Quero tornar o urgente passivo, acalmar esse mar imenso de vontades e roubar o clichê para mim. Fazer essa intensidade girar a meu favor. Usar lentes sépia e viver devagar. Ter um pote de mel sempre por perto. Ver a chuva chegar e lembrar de todos os outonos que já vivi.
  Mais que tudo, quero Maysas, Marias e Marisas cantando para mim enquanto você volta para casa sem me avisar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Vago.

É tudo provisório,
Tudo improvisado.
Faltei aos ensaios,
Perdi as explicações.

Me desmotivei,
Perdi a vontade.
Censurei o tesão,
Cessei meus anseios.

Os olhos foscos, 
Acabou-se o brilho.
Tornozelos marcados
E os sapatos novos.

Fadada ao desencanto,
Um pouco bege
Perdi a fome.
Quero tudo escuro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Abismo

  Era uma escolha. À beira do abismo da sua vida, a dúvida entre viver e respirar, sentir e expectar, ou simplesmente sucumbir. Largar o ócio ao qual estava fadada. Era um emaranhado de sentimentos se confrontando.
  Como um orgasmo e um soco no estômago; um grito desesperado ao acaso e um sussurro infantil. Amou, prezou o carinho, a necessidade de ter alguém e ser alguém. Se suicidava lentamente em seus devaneios; um corpo em meio ao nada, se acabando a cada vez que seus olhos piscavam.
  Morreria, pularia, acabaria com toda a lucidez. Um pouco de coragem, coragem pelo menos na hora de sua morte. Um pouco de liberdade depois de tanta repressão. Era preciso... Preciso mudar, que fosse para desistir, mas quebraria suas próprias barreiras, mataria seus fantasmas de uma vez, se libertaria dos espelhos e dos olhares.
  Pulou. Soltou-se do chão e agora voava. Caía em direção ao seu descanso, à sua paz. Era um anjo, um pássaro, uma pedra. Caindo. Corpo inerte. De olhos fechados, via a mesma escuridão de sempre, a mesma impotência diante do tempo. E se quisesse voltar? E se quisesse não ter desistido? Seu tempo havia acabado, sua escolha fora feita.
  Adeus doce menina.

sábado, 10 de março de 2012

Sede.

  Só quero ser a outra pessoa. O motivo das suas poesias. A razão pela qual você não dorme. Em certos momentos, tudo que eu queria era a situação invertida entre nós. Uma louca e inconsciente paixão por mim e meu descaso habitual. Seu cabelo bagunçado, a barba mal feita, e o tempo gasto pensando em mim.
  Queria que ela não existisse. Queria seus cigarros na minha bolsa e sua blusa esquecida na minha cama. Fotos tiradas durante a madrugada perdidas no meio das minhas cartas e usar seu perfume antes de sair de casa.
  Queria você divagando sobre a cor dos meus olhos e como resolveremos o problema da falta de tempo livre. Queria um daqueles sonetos bonitos falando sobre o jeito torto como eu deito na cama e durmo em silêncio. Daria meu mundo para estar no lugar dela. Ter você nos momentos difíceis, poder te ver chorar e dizer para ficar calmo, mesmo que no fundo seja louca para te ver surtar.
  Eu queria você assim, bobo, bobo... Do jeito que me faz sorrir. Queria você meigo de manhã, e irritado durante a tarde, pra de noite fazermos as pazes e voltarmos a nos amar. Queria você desse seu jeito e até um você menos você só para variar um pouco.
  Talvez... Por você eu até desistisse de todos os outros, deixasse meu ego de lado e me contentasse com só um amor. Me agarrasse a você como se fosse a última tragada, o último gole, o último orgasmo, minha última e única chance de ser feliz.

Inverno Passado

  (...) De repente não responde mais por si mesmo e eu não reconheço mais a mim. Numa confusão entre dentes, línguas e toques molhados, são minhas pernas encaixadas entre as suas, braços calorosos unidos em um único abraço coreografado e um par de costas nuas contrastando entre si.
  Unhas marcando o prazer na pele e um provável gozo a caminho, morde-me a carne querendo-me por inteiro. Sou dele, sou dele e sempre fui, só desconhecia esse detalhe. Contraía os músculos da face como se não admitisse o clímax que estava por vir. Era cada vez mais bruto, cada vez mais forte, queríamos, e teríamos um ao outro.
  Era meu, e somente meu naquele momento. A cabeça pendeu em direção ás costas e seu sorriso me comprou o coração. Descobri, finalmente descobri o sabor de um sonho a se realizar. Descobri o gosto de um paraíso negro que me sorria todos os dias. (...)

domingo, 4 de março de 2012

Agonia.

  O coração confuso, confuso... 
  Entrou no banheiro, trancou a porta atrás dela, apagou as luzes sem querer e encostou as costas nuas na parede fria. Bagunçou o cabelo e fechou os olhos. Respirou fundo e aquele mesmo nó insistente queimou sua garganta. Foi escorregando aos poucos pela parede, tentando se apoiar, e finalmente caiu sentada no chão úmido. Apoiou a cabeça entre os joelhos e sentiu os olhos pesados, magoados. A dor nas têmporas não passava e o chão embaixo dela girava. Quantas doses? Seis? Sete? Quantas pílulas? Oito? Nove? Já não sabia mais...
  Se arrastou até o box e caiu por lá mesmo. Se esticou para tentar alcançar o chuveiro, mas não conseguiu se manter de pé e caiu novamente. A água gelada castigava suas costas marcadas pelas unhas. O cabelo maltratado colava em seu rosto tirando mais ainda seu ar. A água fria se misturava com a morna de seus olhos e ela se afogava em suas dores. Já tinha se tornado físico. Doía de verdade. Agora doída porque ela queria sentir a dor. Doía porque não havia mais sentido viver sem dores reais. Doía porque precisava de alguma verdade em sua vida. Algo verossímil para sentir. 
  Quanto tempo já estava ali, no escuro, se afogando em êxtases que só a tortura a proporcionava? Mais ainda, há quanto tempo não saía para ver a cor no rosto das pessoas? Quanto tempo já fazia, que não corria com os olhos fechados sentindo o calor invadir seu peito? Quanto tempo tinha que não comia algo realmente doce? Quanto tempo se passou desde que foi beijada pela última vez? Quanto tempo tinha desde que qualquer pensamento são passou por sua cabeça? Não discernia realidade de fantasia.
  Era tudo tão distante... Já tinha se passado tanto tempo... Ela tinha morrido. É, morreu e não sabia. Tentava matar alguém que já não vivia mais. Tentava matar as antigas lembranças se sujeitando a excessos e cortes profundos. Queria substituir uma dor por outra. Estava morta, enterrada no passado, mas continuava tentando se acabar. Não percebia que aqueles olhos não eram os dela. Aqueles desejos não pertenciam a ela. Não percebia que aquele corpo caído na poça do banheiro não guardava a alma dela.
  Morreu, morreu e não percebeu. Agonizando, se arrastando para tentar respirar. Deitou sua cabeça num canto molhado e revirou os olhos em agonia. Estava fazendo efeito. Estava funcionando. Uma dor forte, muito forte na cabeça, um pânico a tomava por não conseguir se controlar. Uma pressão imensurável, agonia pura correndo por suas veias. As paredes giravam a sua volta, tudo fosco, as cores borradas e misturadas, e a impotência de não conseguir nem gemer.
  Subitamente, um clarão, e depois, tudo preto.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Nostalgia

  Voltei á minha antiga terapeuta. Falamos um pouco de tudo... Do meu descontrole, das recaídas, das desistências e dos mesmos velhos problemas. Da minha estranha relação com o espelho e com o mundo fora do meu alcance. Do modo como o mártir me abala subitamente e do que eu acho que me faz bem. Falamos sobre meus vícios e meu jeito torto de fugir das sensações boas. Duvidei da minha capacidade de ser feliz de novo e de me sentir confortável ao lado de outra pessoa.
  Falamos de feridas antigas, e das novas. Dos cortes que eu mesma fiz, e dos cortes que eu assisti fazerem em mim. Falamos do meu sorriso torto que andava sumido, e das olheiras que não pareciam lá tão ruins. Relembramos pessoas que já foram a causa desses sorrisos e pessoas que eu fiz sorrir.
  Percebi que não consigo olhar fundo nos olhos de ninguém, que tenho certo medo de viver. Que na verdade não acredito em verdade absoluta nenhuma e que o amor que eu tenho é gasto todo comigo mesma. Descobri que arrependimentos são uma forma interessante de se torturar e janelas podem não ser a melhor das analogias quando o assunto é seu coração.
  Conversamos sobre o período de tempo onde eu me deixei levar e acabei por perder meu eu dentro de mim. Conversamos sobre meu peso e a falta de comida. Falamos sobre os cigarros e sobre as diversas tentativas de mutilação. Discutimos o fato de eu não querer mais me sentir como eu mesma e sobre os conflitos da ideologia que eu insisto em seguir. Foi como passar duas horas gritando comigo mesma. Percebi como sou egoísta e como abraços podem ser falsos. 
  Carência, carência, quanta carência.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sorridentes

  Nós morremos. Aos poucos, tanto o meu eu em você quanto seu eu em mim, foram se acabando, se cansando, se guardando, se rendendo... E como que de repente, já não existia mais nós nenhum. Éramos só você e eu.
  Pés maltratados e cabeças doloridas, o coração só fazia o de costume; Bombeava o sangue amargado pelo descaso. Era tudo tão... Simples. É, simples mesmo. Só precisava aceitar que não haveria mais mágica, que o brilho daqueles dias comuns de Sol se apagaria sozinho, e toda a música diminuiria um tom.
  A palidez era comum, a vida estava no automático. E nós iríamos sobreviver, nós iríamos... Sem nós, nada de pluralidades. Você lá e eu aqui, sobreviveríamos, sorridentes.