quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cinza

  Não lavei a roupa. As compras ainda estão nas sacolas. O café velho ainda marca o fundo da sua xícara, borrada com meu batom pêssego. Os móveis da sala ainda formam um semi-círculo para dançarmos depois do jantar. Os cinzeiros estão lotados e a pia ainda pinga no mesmo ritmo. A TV está fora da tomada, assim como o rádio. O único som que se escuta é o teclar da máquina.
  Meu cabelo despenteado se embola em torno de um grampo que o mantém no alto, deixando meu pescoço livre para que eu possa respirar. As unhas roídas caídas pela mesa remoem minha insegurança e minha anciedade, banhadas pela cafeína de toda a bebida que consumi. Olheiras fundas vigiam meus olhos para não deixá-los enxergar demais.
  O tempo passa, eu nem me importo mais. Tirei a pilha dos relógios. Vem dia, vira noite, madrugada e manhã, e eu nem me mexi. Nada mudou. Os sinos batem no mesmo ritmo, as antenas sintonizam os mesmo canais, os livros estão marcados nas mesmas páginas. Nada, nada mudou. A casa tem o mesmo cheiro, as cortinas a mesma cor, a água a mesma temperatura e a campainha o mesmo som.
  Depois de te ver ir embora, aqui dentro, tudo continua cinza.
  


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