segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chuva

  A maquiagem dos olhos estava borrada. As lágrimas estragaram o contorno negro de suas pálpebras. O cabelo estava embaraçado, desprendido e selvagem, assim como seu coração. Os pés descalços e suas unhas rubras como sangue, contrastando com a pele branca intocada. Os lábios entreabertos apoiavam um cigarro de marca barata e guardavam um brilho perolado do que antes fora o batom mais convidativo e provocativo possível.
  O cinza dos olhos se perdia lá fora, através da janela. Cotovelos apoiados no parapeito, que não lhe passava nenhuma segurança. Seu corpo nu fazia o mundo todo parecer menos atraente. Tinha seu próprio brilho durante a noite. Sua própria sinfonia.
  Batia levemente o cigarro na janela e assistia as cinzas alaranjadas caírem os onze andares ao encontro do chão e irem se ofuscando pelo trajeto.
  Não queria pensar em nada, mais nada, não queria lembrar do que vira, do que ouvira, do que sonhara, do que sentira. Queria trancar dentro de si tudo o que tinha acontecido. Esconder tudo lá no fundo, lá dentro, antes que seus pensamentos mais sãs resolvessem despertar. Uma brisa um pouco mais fria, que a relembrava da solidão, invadia sua janela, e então, mais uma lágrima descia pelas maçãs do rosto em direção a seu pescoço. Passava pela clavícula perdendo forças, até que uma outra chegava para fortalecê-la, e então mais outra, e mais outra, e assim as lágrimas se perdiam em seu ventre. Sentia os soluços chegarem à sua garganta sem perdoarem-na.
  Decidiu parar de chorar. Secou os olhos com as costas da mão, deixando marcas pretas entre os dedos. Respirou bem fundo e mordeu o lábio inferior, na tentativa de evitar mais soluços e estancar as lágrimas.
  O ar ficou pesado. Uma brisa úmida passou por seus cachos mal feitos e ela fechou os olhos. Rezou silenciosamente para que chovesse. Que chovesse por dias e dias. Para que a chuva alagasse ruas e vielas, impossibilitando as pessoas de saírem. Que ela se sufocasse dentro de si mesma, enquanto a água divina escorresse por sua vidraça. Que todo o resto, todo pedaço rejeitado do paraíso caísse com essas gotas.
  Um fio de luz já aparecia no horizonte. O céu não era mais tão escuro, o mundo lá fora não era assim tão podre, seus problemas não eram tão significativos quanto pareciam e seus cortes já pareciam querer sarar. Acendeu mais um cigarro e esticou os braços para fora da janela. Queria sentir o primeiro traço de calor da manhã. Então, uma única gota... Uma gota solitária beijou a ponta de seus dedos.
  Seria esse, o começo de um recomeço...

2 comentários:

  1. Que texto maravilhoso *-* E é bem assim que as coisas são...
    Estou seguindo, se puder seguir tambem haha

    ResponderExcluir