terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Cabelos, tamancos e martelos.

  Vou cortar os cabelos. Está mais que decidido. E não passa de amanhã. Vou arrumar qualquer tesoura, qualquer faca, qualquer desculpa ou canivete pra não me perdoar. Assistir fio a fio ir se deitando um sobre o outro no chão. Ou talvez o faça durante o banho. Pra não ver bagunça nenhuma... Sufocar o ralo com minhas pendências, afogá-lo de mais nada além dos restos.
  Que de restos não quero nada. Pendências, poeira, promessas... Que se esbarrem e se esganem. Já bati meus tamancos; que disso tudo não quero um grão. Os tamancos e os martelos. Logo depois me decidi: que dos tamancos é melhor descer. Porque descalça ando melhor; afinal, já me livrei dos grãos mais incômodos. E o tamanco apertado não vai fazer tanta falta assim.
  Então que o martelo se cuide sozinho, tome rumo, se decida. Pois por mim se escapole ralo abaixo junto com os grãos e com os cabelos e talvez até com os tamancos. 
  Mas não passa de amanhã...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Devoção.

- Entre medo, angústia e luxúria.

  Olha. Olha você agora. Vira seu rosto pro meu, tira os óculos e só olha...
  Olha pros nossos pés, distantes. E pro nosso silêncio, finalmente calado.
  A nudez da alma.
  Diz, onde esquecemos, onde desistimos de invadir um a alma do outro? E trocar os divãs, invadir as camas? Tantas roupas, tantos panos, tantos sapatos, empecilhos.
  Simplifiquemos.
  Vem pra dentro de mim. Mora dentro de mim. Me arranha por dentro, me rasga, me sangra. Começa por dentro e vai me descascando. Me põe nua de dentro pra fora. Ressurge do meu ventre, sendo só meu. Vive em mim. Rouba meu ar, ataca o ego, o show é seu.
  Mas de dentro de mim. Sempre dentro de mim. Morre e renasce em meu ventre; que prometo, te guardo pra sempre. Meu e somente meu, não sai nunca que não é preciso.
  Esquece a pureza, esquece a castidade. Esquece o branco, esquece o limpo. Transa comigo até o tempo se perder. Até você se vender. Cospe sua vida pra dento de mim, simplesmente porque você pode. Pode o que quiser. Mas fica comigo depois. Vem se esconder no meu umbigo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Rasgo.

Meu poeta. Meu poeta particular. 
Tua alma que não se cabe comportada.
Poeta que não vive poesia.
Linhas tortas, dedos firmes.
Poeta desprovido de poema.
E foram cinco. Cinco beijos.
Infinitos planos. Apenas planos.
Caro poeta, que é saudade. 
Deixei vazar, escorreu.
Eu e minhas fendas...
Não pudemos conter-lhe.
Talvez rezar para que volte.
Rezo não, é demais. 
Aguardo, pois. 
De dedos cruzados, que seja.
Que se voltar, que se volte como foi.
Recite seus versos desconexos.
Admita vontade. Recupere a urgência.
Em silêncio, discreto.
Direcione meus devaneios novamente.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Aquarelado.

  Em teu corpo infinito, quero morar em teu umbigo. Ser parte de teu ventre, sentir-te toda até os seios; costas e braços e unhas e pele. Lábios rosados e outros pálidos. Coxas finas de menina, morenas de mulher. Minhas, somente minhas. Joga os braços para cima, agarra-se aos lençóis, contorce o pescoço, se estica por inteira. Volta a dominar-me, mordendo a carne, rasgando a pele. Voraz, incansável, inabalável, puxa os cabelos e faz de mim parte tua. Provoco-te: Seja! Seja! Seja! E tu és. E tu fazes. Tu que eras só mais um sorriso, agora faz-se louca por inteira. Gritos e rasgos e sangue e gozo. Respira pesado, ofegante. Relaxa as têmporas, solta os lençóis. Abre os olhos e me sorri. Ainda muda, me alcança as orelhas, encosta os lábios finos e os dedos melados, sussurra meia dúzia de segredos e depois se deixa cair. Adormece, e já menina, se enrosca toda, calada em si.
  E na tarde fria, no céu laranja, estamos nós, gravadas pela eternidade.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Calados:

  Meu corpo encolhido, tuas mãos procurando milagre. Um pouco mais encolhido, teus pés a procura de ar. Seus olhos fechados; abertos os meus. Uma lágrima, incontida, vai.
  Ao resto da noite, questiono a mim mesma, dos porquês e motivos. Que já não acho, já não sei. Que não é bruto. Que não sou. Que em teu colo, frágil. Eu sou. E sou só. Já que em teu colo, água sou. Sou algodão. Fina e transparente. Branca, um sopro fraco.
  Por sexo de poeta. Sussurros e carinho, em toques mornos, quase não toques. Lábios sem cor, olhos sem cor, cabelos sem cor, pele sem cor, unhas sem cor. Um corpo sem formas. Sem cor, cheiro, gosto. Quase vapor, é fumaça quase imperceptível, é alma quase crua, é fria.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Inconsistência

Bem solta, meio arranhada
Parou de rezar, me preocupei


- O mesmo filme do mês passado:
Ele está de costas, ainda cantando.
"Não se venda, não se ofereça."
Antes sua, agora nossa (preocupação)


Queremos assim, conturbado,
Proliferando o insosso mais uma vez.


Morena, não se magoe.
Não vale, não vale a pena.


Pois é, fugi, saí.
Não tenho mais onde morar.
E se seu lar não for aí, pouco importa,
Mantenha-se longe daqui.


Caindo de novo, ao contrário.
Pulmões treinados, ritmados
Só desejamos um dia feliz,
Regado à mansidão e alguma fumaça.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Manoela

  - Para quebrar a calmaria, descalçar os sapatos, sentir a grama molhada.
  
  O vento morno dourando a pele e os olhos fechados atrás das lentes escuras. A falta dos cabelos compridos; a novidade que era a brisa beijando-lhe a nuca.
  Tudo num sopro pacífico, após todo o pânico. A única dor morava nas pernas, adormecidas sob o peso de seu corpo. Apesar de solitária, mantinha-se calma. Estava tranquila, sóbria.
  Sem palco, holofotes ou escadarias. Estava lá, sem nem mesmo saber onde "lá" ficava. Não se importava. Imóvel, assistindo as nuvens passearem acima de seu alcance, piscava lentamente.
  Enchia os pulmões de ar, sentia a dor agradável, e tornava a expelir tudo. Repetia o processo pacientemente, mantendo-se viva.
  Segurou um punhado de terra na palma da mão e foi soltando-o aos poucos. Devolvendo cada grão de volta ao seu lugar. Colocou as mãos suadas sobre os pés quentes, percebendo a primeira gota a escorrer de sua testa.
  Estava quente, e subitamente o acolhedor tornou-se libertador. Levantou-se com a coragem que nunca teve. Tirou os óculos e deixou-os caírem ao chão. Soltou as alças do vestido florido, incomodando-se com a nudez de seus seios. Livrou-se de tudo o que não fizesse parte de seu corpo, o rosto tomado pela vergonha.
  Era o calor. O calor, o Sol e sua vida se esvaindo. Corria, então. Corria para perder-se. Não era ela mesma, não era ela, não era, não... Calmaria demais, sobriedade demais, tranquilidade demais.
  O lago. Correu intranquila, até os dedos dos pés tocarem o primeiro fio d'água. Parou então, ofegante. Fitou seu reflexo por uns segundos. Reparou as mesmas marcas e cicatrizes abaixo do ventre e logo mudou o olhar de direção. O Sol desistira, estava se cansando... E ela também. Fechou os olhos, proibiu-se de respirar. Mergulhou seu corpo nu na água fria e foi se afundando até a luz laranja não existir mais.
  Tudo negro, submersa, apertava os olhos com medo. A dor nas têmporas já a matava, precisava de mais ar, mesmo tendo se proibido. Não respiraria, não desistiria, fraquejar não era opção.
  Abriu os olhos, e agora, constatava a real solidão.
  Soltando o ar aos poucos, viu-se inteira e completamente vazia. Abriu a boca, deixou-se invadir pela transparência da água. Ardendo, queimando, rasgando, sufocou-se de quase nada. Era quase nada, não via mais nada, já não sentia, inconsciente.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cura, cuspe, culpa.

  Disse. Sou assim. Que completem meus buracos, preencham-nos. De atropelo em atropelo, espero que resolvam.
  Mas não são. Não o que deviam ser, o que me é necessário. Espaços e vãos muito escuros, ou muito extensos, até irreais. Assombrados e mal queridos por não satisfazerem.
  Habitam a alma, e assombram por não desistir. Assombram por insistir, por existir.
  A mesma caridade de teu suor já não me basta. Pele e boca, calor e toque; não me suprem só os teus.
  
"Amo-te com certo dó; um ar de arrependimento e prováveis súplicas de socorro".
  
  Feito rombos e gritos. Entre cômodos vazios, frios e sexo escorrendo pela ponta dos dedos. Distraída, sobre os pés molhados em cima da cama e meu cabelo embolado sobre teu peito. Sobre a mistura de tinta escura e lágrimas frias, secando juntas.
  Abismo em abismo, buraco em buraco, tentando amar-te com amor. Desejando teu mais puro suor por não suar. Tua sujeira incolor por não sujar. E tuas mordidas insípidas por frigidez. O desnivelamento do solo anda cortando-me os pés.
  Baixaria; tens-me rouca, então, insóbria.

sábado, 26 de maio de 2012

Desprezo

"É sussurro demais e grito de menos."


  Me falta a intensidade. Há três semanas que não choro. Não esperneio. Não me rasgo. 
  Não como demais, nem de menos. Não corro urgente, nem me arrasto. Não me escondo ou bato no peito. Não me destaco, nem me ofusco. Estou morna. Puro equilíbrio. Que Diabo esse tal de equilíbrio! Mas tão ruim, tão ruim que não consigo me desvencilhar.
  Estou sorrindo, oh meu Deus, sorrindo! E essa não sou eu. Estou jogando muito fácil, muito limpo. Minha sujeira foi lavada e eu ainda permiti. Permiti com o mesmo sorriso do tal acinzentado no rosto.
  Não quero céu, nem inferno. Eu quero a eternidade entre eles. Mas não quero, não quero equilíbrio! Quero pender pros lados, escorregar, torcer os tornozelos. Sentir a dor, agonizar e gritar até que a garganta sangre. Chorar então, por duas dores.
  Quero o pecado sem beijo na testa depois. Quero fogo sem abraço pra amenizar as feridas internas. Quero gente errada, gente perdida, intranquila, me oferecendo as pílulas da insanidade. Quero ir ao ponto mais alto e despencar de lá de propósito. Cair com o rosto no chão quente, pra ter vergonha de ser o que sou. 
  Quero engasgar com minha própria ironia, e morder a língua depois. Quero o pano mais limpo, pra estender na minha parede e poder sujá-lo com todo o vômito de coisas escuras que comi sem sentir o gosto. Quero música pobre, de voz rouca e instrumento desafinado, pra esperar a noite chegar.
  Mas ando tão equilibrada...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Fosco.

Leve como nunca
Aceito do vento, sorrisos.
Pouco reconheço-me.
Há brisa e costumeiras estrelas
Uma para cada beijo ainda não selado.
Minhas mãos, todas suas
Meus pés, logo após os seus
Bailando ritmados pelas ruas vazias
O sépia não guarda rancor.
Já passou querida. Já... Passou.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Disforme

Leve meu coração de mim
Arranque-o de meu peito e corra.
Não pondere, não pisque.

Corra até suas pernas arderem,
Mesmo arfando, continue
Até sangrar os pés.

Corra, corra com ele nas mãos fechadas
Vá em direção ao mar.
Tranque-o dentro de um baú,
Junto aos seus segredos.

Lembre-se da indecência de meus olhos;
Das mentiras e das meias-verdades mal contadas.
Do meu corpo jogado ao seu lado, sem ar.
Pense no gosto amargo após tanto tempo sem minha boca.

Cubra todas as lembranças, os ressentimentos
Com o mesmo lenço escuro que me vestia.
Junte-os dentro do baú.

Um coração validado e uma vida ressecada
Amarrados, fadados a submergir.
Atados, logo apodrecerão.




terça-feira, 15 de maio de 2012

Volátil

  Ando meio bagunçada esses dias. Os pés sempre muito frios e o cabelo sempre desarrumado. O rosto limpo, sem brilho algum, e o sorriso contido por medo de perdê-lo. Ando deixando as unhas crescerem pra ver se a confiança aumenta com elas. Ando devagar agora, estou me deixando molhar na chuva e cantando qualquer música que me faça arder a garganta.
  Larguei o espelho no mesmo lugar em que esqueci como se amarram cadarços. Não tenho mais a habilidade de abotoar meus botões ou costurar os rasgos. A dor nos joelhos vem com o frio pra me lembrar de que é deitada que eu devo ficar.
  Conto cada dia como um a menos na espera de voltar. Voltar a me ver. Estou com saudade de me ver passar por aí. Saudade de me abraçar e me beijar. Sentir o calor do meu corpo e meus tremores. Minha essência se perdeu em um suspiro, ando mais vazia que esperava. A falta vem me engolindo. A necessidade, a saudade, a carência, a falsa expectativa, a apatia.
  Mais apática que o normal, estou emudecendo. Emudecendo por não saber o que dizer. Há muitos suspiros e expressões de blefe no lugar das palavras. Não acho bonito isso de querer o que não posso ganhar. De querer me enganar te enganando.
  São lindas, todas essas palavras. Todos esses sons que nunca escutei. Todos os fonemas que você nunca pronunciou. Realmente, a coisa mais linda que poderia me acontecer.
 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Enfermidade

Frio entre os cobertores
Abismo entre os corpos
Lágrimas entre as pálpebras
Dó e dor entre os seios à mostra

Costas beijando costas
Mel melando as coxas
Lábios ressecados e quentes
Olhos fechados orando

Pecado que sufocou as bocas
Arrependimento pesando o ar
Poesia, dois poetas mal amados
Se rendendo à decadência final

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Assim:

  Essa coisa de ser... Eu queria ser. Eu, simplesmente sendo. Não é tão difícil assim. Ser por ter sempre sido, sem perceber que sou, apenas sendo. Ser o ser que sempre fui, sem saber que fora, tendo sido esse ser que é. E é porque é, é sem sentir. Não de não ter sentido, mas ir sentindo tudo isso que é. Tudo isso que sou. E sentir, mesmo sendo sem sentido, essa coisa de sentir... É.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Puro drama.

  Esse é meu palco, é esse meu show. Chego acompanhada por um único holofote solitário, sento na beira do palco, vestido azul e cabelo bagunçado. Um sorriso simpático à plateia e me faço puro silêncio. Encarando os expectadores como se quem expectasse o esboço de alguma reação fosse eu. A música começa, me deleito, me jogo, me deixo, sou. Sou a música. Sou a dança; estou entregue, vulnerável. É ritmo, é vida, harmonia, cada músculo arde com o prazer da libertação. 
  A música para. Mais silêncio. As luzes vermelhas, e barulho, tanto barulho... São batidas, são passos, são gritos, são ocos, sufocados. Me jogo no chão em tormenta, mãos nos ouvidos, olhos apertados, corpo contorcido e coração em agonia. Mas e o público, ninguém percebe? Não estava nada planejado, nada ensaiado. Venham me acodir, venham me socorrer! Rebelem-se, andem, levantem-se de seus assentos, tomem coragem e venham me livrar dessas feras silenciosas. Não é atuação, não é mentira, está ardendo, está cortando. 
  E agora há sangue. Sangue das minhas próprias veias, sangue da minha carne, que está a mostra. Jorro meu fio rubro de vida pra qualquer um da primeira fileira. O cheiro forte, o gosto salgado, a cor da morte; da vida. Minha cor. Jorro minha agonia, minha impureza, meu sangue e meus gemidos a todos os presentes. É de graça, minha graça, toda sua, só pra vocês. Aproveitem, quero gritos, gritos e palmas para minha decadência, minha morte, meu corpo agonizando, gemendo e se desfazendo em pleno desfoque da luz.
  Blackout. Cortinas se fecham, e tornam a abrir. Luzes amareladas, tantas flores pelo chão... São brancas as flores. Não há mais sinal de sangue, ou a fumaça que estava presa em meus pulmões. É fresco o ar agora. Só vejo o teto branco. Nada de céu azul. E quanto tempo se passou? Ainda estão me assitindo? É melhor sorrir... Mas mortos não sorriem, não conseguem. Perdi o controle. Estou presa, no corpo de uma defunta qualquer, morta pela minha própria arte, meu próprio tesão por estar no centro de tudo.
  Uma música calma, quase que morta também, comanda as sombras que embebem o corpo frio, mutilado. A alma se desprende, vai devagar, pisando em flores, o olhar baixo, a áurea fosca, chegando até o limite entre palco e queda, e muda, grita com os olhos, encarando cada um que se encontra sentado a sua frente. Desce do palco, vira as costas, e se dissipa em meio ao nada... 
  Chuva de aplausos; recém chegada, me entreguei, transformei e me permiti. Morri, ou talvez me matei, morta que era me deixei levar.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ocre.


  Temo por quando me esqueço de esconder os papéis; prefiro que não os veja. O que lhe parece tinta e papel seco, é pra mim vida. É vida e morte ao mesmo tempo. É tentar matar um sentimento escrevendo-lhe, é tentar escorrer o fluido escuro e denso dentro de mim. É abdicar dessa melancolia pra redescobrir a vida.
  E tais palavras, talvez não tão pessoais em sua concepção, recitadas tão facilmente por  tua boca, me rasguem os olhos apenas quando lidas corridas pela mente. Eu explico demais, e até mais: ando paciente. E barata também. Estou pra qualquer um; sorrindo logo me tens. Quem sabe -e alguém há de saber- não seja isso a tal da carência, a falta de toque, a saudade de me olhar com cautela.
  Já houve tempo em que gritei por aí estar perdida, descalça e sem rumo, pisando em falso de propósito. Pois é bem aí em que me encontro. A sensação de desprendimento, de solidão e cegueira, não passa de... Sensação. E perdida, estou no ponto mais escuro de meu âmago me deleitando com as pequenas tímidas cócegas desse gosto amargo depois da noite marrom de ontem.
  Uma qualquer uma vez contou, alertou sobre certo desconforto áspero que poderia vir aparecer em minha garganta após tanta palavra gasta com o vento, com o nada. Mas e meu sub-eu? E o eu que não controlo? Não há de me escutar? Porque a solidão, nada mais é que ilusão. Há muito de mim em volta de mim mesma, me assombrando, arranhando e segurando a cada passo, a cada vez que inspiro.
  E liberdade, há de surgir por aí; espero apenas esbarrar nela na esquina mais próxima, sem medo de morar no fácil.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Mais uma vez.

  Ah Daniel, tome mais cuidado da próxima vez! A menina chorava tanto... Os olhos borrados, as lágrimas sujando as bochechas e os lábios tremendo, cansados. Chorava sem motivo aparente. Sem motivo? Chorava por ti Daniel. O silêncio entre os soluços fazia parecer que ela estava tão longe... E se uma meia risada aparecia em meio ao choro, era porque ela estava com você. Nos pensamentos, estava em seus braços...
  Não posso afagar os cabelos de cada moça que você machucar. Não posso secar cada lágrima que for derramada por ti, e não posso Daniel, não vou viver à tua sombra para sempre. Você prometeu, ia tentar, não prometeu?
  Sabe, tem tempo que não te vejo... Que não te sinto. Que não te ouço brigar comigo por não dizer a verdade. E vou admitir que sinto saudades. Aquela pontinha aguda do "podia ainda ser eu" me espeta cada dia mais fundo. Fiquei esperando você voltar e você não voltou. Mas prometeu que não voltaria, então por que... Eu ando confusa, me confundindo. Talvez seja todo esse tempo seca demais. Todo esse tempo amarga demais. Me forçando a esquecer.
  Mas você Daniel, você é eterno. Eterno fixado no ontem. Está preso, registrado, guardado no que acabou de ficar mais pra trás. Vou te embalar, te embrulhar e colocar no fundo da caixa. Que é pra daqui algum tempo, poder te descobrir de novo.
 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012

Tanto

  Eu quero uma banheira. Quero uma cama baixa e muitos quadros. Livros empilhados e fotos coladas nas paredes do corredor. Manchetes de jornal que me lembrem você. Pedaços de papel presos na porta do armário, com bilhetes quem me façam rir de manhã. 
  Um apanhador de sonhos na janela e rabiscos na porta. Trechos de músicas e poesias pintadas nas paredes da sala. Chinelos grandes demais e shorts curtos. O mesmo blusão sem nada por baixo e mais um dia frio. Banhos com as luzes apagadas e os espelhos fora do lugar.
  Quero romances foscos, saídos do meu projetor. Um copo de café bem amargo e biscoitos sem açúcar num pote de vidro perto da câmera que você esqueceu de propósito. As fotos coloridas escondidas numa caixa. Calendários antigos ainda nas gavetas e cartas seladas embaixo deles. Chaves no balcão de madeira e velas meio derretidas.
  Quero tornar o urgente passivo, acalmar esse mar imenso de vontades e roubar o clichê para mim. Fazer essa intensidade girar a meu favor. Usar lentes sépia e viver devagar. Ter um pote de mel sempre por perto. Ver a chuva chegar e lembrar de todos os outonos que já vivi.
  Mais que tudo, quero Maysas, Marias e Marisas cantando para mim enquanto você volta para casa sem me avisar.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Vago.

É tudo provisório,
Tudo improvisado.
Faltei aos ensaios,
Perdi as explicações.

Me desmotivei,
Perdi a vontade.
Censurei o tesão,
Cessei meus anseios.

Os olhos foscos, 
Acabou-se o brilho.
Tornozelos marcados
E os sapatos novos.

Fadada ao desencanto,
Um pouco bege
Perdi a fome.
Quero tudo escuro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Abismo

  Era uma escolha. À beira do abismo da sua vida, a dúvida entre viver e respirar, sentir e expectar, ou simplesmente sucumbir. Largar o ócio ao qual estava fadada. Era um emaranhado de sentimentos se confrontando.
  Como um orgasmo e um soco no estômago; um grito desesperado ao acaso e um sussurro infantil. Amou, prezou o carinho, a necessidade de ter alguém e ser alguém. Se suicidava lentamente em seus devaneios; um corpo em meio ao nada, se acabando a cada vez que seus olhos piscavam.
  Morreria, pularia, acabaria com toda a lucidez. Um pouco de coragem, coragem pelo menos na hora de sua morte. Um pouco de liberdade depois de tanta repressão. Era preciso... Preciso mudar, que fosse para desistir, mas quebraria suas próprias barreiras, mataria seus fantasmas de uma vez, se libertaria dos espelhos e dos olhares.
  Pulou. Soltou-se do chão e agora voava. Caía em direção ao seu descanso, à sua paz. Era um anjo, um pássaro, uma pedra. Caindo. Corpo inerte. De olhos fechados, via a mesma escuridão de sempre, a mesma impotência diante do tempo. E se quisesse voltar? E se quisesse não ter desistido? Seu tempo havia acabado, sua escolha fora feita.
  Adeus doce menina.

sábado, 10 de março de 2012

Sede.

  Só quero ser a outra pessoa. O motivo das suas poesias. A razão pela qual você não dorme. Em certos momentos, tudo que eu queria era a situação invertida entre nós. Uma louca e inconsciente paixão por mim e meu descaso habitual. Seu cabelo bagunçado, a barba mal feita, e o tempo gasto pensando em mim.
  Queria que ela não existisse. Queria seus cigarros na minha bolsa e sua blusa esquecida na minha cama. Fotos tiradas durante a madrugada perdidas no meio das minhas cartas e usar seu perfume antes de sair de casa.
  Queria você divagando sobre a cor dos meus olhos e como resolveremos o problema da falta de tempo livre. Queria um daqueles sonetos bonitos falando sobre o jeito torto como eu deito na cama e durmo em silêncio. Daria meu mundo para estar no lugar dela. Ter você nos momentos difíceis, poder te ver chorar e dizer para ficar calmo, mesmo que no fundo seja louca para te ver surtar.
  Eu queria você assim, bobo, bobo... Do jeito que me faz sorrir. Queria você meigo de manhã, e irritado durante a tarde, pra de noite fazermos as pazes e voltarmos a nos amar. Queria você desse seu jeito e até um você menos você só para variar um pouco.
  Talvez... Por você eu até desistisse de todos os outros, deixasse meu ego de lado e me contentasse com só um amor. Me agarrasse a você como se fosse a última tragada, o último gole, o último orgasmo, minha última e única chance de ser feliz.

Inverno Passado

  (...) De repente não responde mais por si mesmo e eu não reconheço mais a mim. Numa confusão entre dentes, línguas e toques molhados, são minhas pernas encaixadas entre as suas, braços calorosos unidos em um único abraço coreografado e um par de costas nuas contrastando entre si.
  Unhas marcando o prazer na pele e um provável gozo a caminho, morde-me a carne querendo-me por inteiro. Sou dele, sou dele e sempre fui, só desconhecia esse detalhe. Contraía os músculos da face como se não admitisse o clímax que estava por vir. Era cada vez mais bruto, cada vez mais forte, queríamos, e teríamos um ao outro.
  Era meu, e somente meu naquele momento. A cabeça pendeu em direção ás costas e seu sorriso me comprou o coração. Descobri, finalmente descobri o sabor de um sonho a se realizar. Descobri o gosto de um paraíso negro que me sorria todos os dias. (...)

domingo, 4 de março de 2012

Agonia.

  O coração confuso, confuso... 
  Entrou no banheiro, trancou a porta atrás dela, apagou as luzes sem querer e encostou as costas nuas na parede fria. Bagunçou o cabelo e fechou os olhos. Respirou fundo e aquele mesmo nó insistente queimou sua garganta. Foi escorregando aos poucos pela parede, tentando se apoiar, e finalmente caiu sentada no chão úmido. Apoiou a cabeça entre os joelhos e sentiu os olhos pesados, magoados. A dor nas têmporas não passava e o chão embaixo dela girava. Quantas doses? Seis? Sete? Quantas pílulas? Oito? Nove? Já não sabia mais...
  Se arrastou até o box e caiu por lá mesmo. Se esticou para tentar alcançar o chuveiro, mas não conseguiu se manter de pé e caiu novamente. A água gelada castigava suas costas marcadas pelas unhas. O cabelo maltratado colava em seu rosto tirando mais ainda seu ar. A água fria se misturava com a morna de seus olhos e ela se afogava em suas dores. Já tinha se tornado físico. Doía de verdade. Agora doída porque ela queria sentir a dor. Doía porque não havia mais sentido viver sem dores reais. Doía porque precisava de alguma verdade em sua vida. Algo verossímil para sentir. 
  Quanto tempo já estava ali, no escuro, se afogando em êxtases que só a tortura a proporcionava? Mais ainda, há quanto tempo não saía para ver a cor no rosto das pessoas? Quanto tempo já fazia, que não corria com os olhos fechados sentindo o calor invadir seu peito? Quanto tempo tinha que não comia algo realmente doce? Quanto tempo se passou desde que foi beijada pela última vez? Quanto tempo tinha desde que qualquer pensamento são passou por sua cabeça? Não discernia realidade de fantasia.
  Era tudo tão distante... Já tinha se passado tanto tempo... Ela tinha morrido. É, morreu e não sabia. Tentava matar alguém que já não vivia mais. Tentava matar as antigas lembranças se sujeitando a excessos e cortes profundos. Queria substituir uma dor por outra. Estava morta, enterrada no passado, mas continuava tentando se acabar. Não percebia que aqueles olhos não eram os dela. Aqueles desejos não pertenciam a ela. Não percebia que aquele corpo caído na poça do banheiro não guardava a alma dela.
  Morreu, morreu e não percebeu. Agonizando, se arrastando para tentar respirar. Deitou sua cabeça num canto molhado e revirou os olhos em agonia. Estava fazendo efeito. Estava funcionando. Uma dor forte, muito forte na cabeça, um pânico a tomava por não conseguir se controlar. Uma pressão imensurável, agonia pura correndo por suas veias. As paredes giravam a sua volta, tudo fosco, as cores borradas e misturadas, e a impotência de não conseguir nem gemer.
  Subitamente, um clarão, e depois, tudo preto.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Nostalgia

  Voltei á minha antiga terapeuta. Falamos um pouco de tudo... Do meu descontrole, das recaídas, das desistências e dos mesmos velhos problemas. Da minha estranha relação com o espelho e com o mundo fora do meu alcance. Do modo como o mártir me abala subitamente e do que eu acho que me faz bem. Falamos sobre meus vícios e meu jeito torto de fugir das sensações boas. Duvidei da minha capacidade de ser feliz de novo e de me sentir confortável ao lado de outra pessoa.
  Falamos de feridas antigas, e das novas. Dos cortes que eu mesma fiz, e dos cortes que eu assisti fazerem em mim. Falamos do meu sorriso torto que andava sumido, e das olheiras que não pareciam lá tão ruins. Relembramos pessoas que já foram a causa desses sorrisos e pessoas que eu fiz sorrir.
  Percebi que não consigo olhar fundo nos olhos de ninguém, que tenho certo medo de viver. Que na verdade não acredito em verdade absoluta nenhuma e que o amor que eu tenho é gasto todo comigo mesma. Descobri que arrependimentos são uma forma interessante de se torturar e janelas podem não ser a melhor das analogias quando o assunto é seu coração.
  Conversamos sobre o período de tempo onde eu me deixei levar e acabei por perder meu eu dentro de mim. Conversamos sobre meu peso e a falta de comida. Falamos sobre os cigarros e sobre as diversas tentativas de mutilação. Discutimos o fato de eu não querer mais me sentir como eu mesma e sobre os conflitos da ideologia que eu insisto em seguir. Foi como passar duas horas gritando comigo mesma. Percebi como sou egoísta e como abraços podem ser falsos. 
  Carência, carência, quanta carência.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sorridentes

  Nós morremos. Aos poucos, tanto o meu eu em você quanto seu eu em mim, foram se acabando, se cansando, se guardando, se rendendo... E como que de repente, já não existia mais nós nenhum. Éramos só você e eu.
  Pés maltratados e cabeças doloridas, o coração só fazia o de costume; Bombeava o sangue amargado pelo descaso. Era tudo tão... Simples. É, simples mesmo. Só precisava aceitar que não haveria mais mágica, que o brilho daqueles dias comuns de Sol se apagaria sozinho, e toda a música diminuiria um tom.
  A palidez era comum, a vida estava no automático. E nós iríamos sobreviver, nós iríamos... Sem nós, nada de pluralidades. Você lá e eu aqui, sobreviveríamos, sorridentes.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Volte.

  Quero poder botar minhas mãos no seu rosto de novo. Olhar fundo, fundo nos olhos sem receio, e dizer o que nunca disse. Quero apertar sua mão mais forte que nunca, me jogar nos seus abraços e dormir no seu colo por mais uma vez. Quero acordar e ver sorrir o mesmo sorriso torto de sempre. Quero esbarrar nos seus livros e ver sua cara zangada de menino. Quero muitos, muitos beijos antes de dormir, e aquele carinho bobo no escuro. 
  Quero poder botar minhas mãos no seu rosto de novo. Percorrer todo ele com os dedos. Sentir seus cílios grossos e sua boca esculpida por anjos. Quero olhar fundo, fundo nos olhos sem chorar, e dizer que meu amor por você nunca vai morrer. Te lembrar que o que tem aqui dentro, é de verdade, é vivo. Vive em mim e me consome um pouco mais a cada dia. Se alimenta das minhas poucas esperanças e arde com uma certa maldade.
  Quero tanto, mas tanto, ouvir sua voz perdida pelos corredores, e sentir seu cheiro tomando conta das lembranças... Voltar ao dia em que te vi chorar, e poder perder meus dedos por entre o emaranhado do seu cabelo. Lembrar de como doeu em mim secar suas lágrimas, e de como um sorriso seu já me valia viver essa vida.
  Só queria te lembrar, te relembrar, que seu lugar ainda está guardado aqui, só te esperando voltar.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Diálogo de um fim de tarde.

[...] 
- Saudade... Saudade? Não conheço não senhor.
- Ora menina, que frieza nesse coração!
- Frieza... Pode ser... (pausa) Frieza... Não, não creio que posso concordar.
- Como não jovem menina?! Um coração sem saudade é um coração sem lembranças. É coração de gente vazia, sem momentos, sem amigos, nem sorrisos, sem dias terminando com o imponente Sol se indo, se guardando. Saudade nos revigora, saudade mostra que nos importamos; nostalgia; é reconhecer que os momentos valeram a pena, é reviver.
- Não, temo não conhecer tal sensação. Vivo de agora meu senhor. Agora e só agora.
- Menina, que é isso? E o que passou? E antes? E todas as manhãs que já se foram, trazendo o calor para te certificar de que está viva? E toda a chuva, e todo o vento do fim do dia? E o amor, e o amor?!
- Amor. Por que sempre o amor? Por que sempre os sorrisos? Sabe meu senhor, é esse o erro. É aí a falha. Sorrisos, amor, bem estar. É tudo mentira. É mentira meu senhor. Abra seus olhos, abra, veja a verdade. Saia da caixa, saia da caixa! É difícil não é mesmo? Reconhecer que é tudo ilusão. Nada passa de mentiras. Nada. Ninguém é só feito de sorrisos. Ninguém é completamente amor. Não são sempre os dias de Sol que vão te dar prazer. Aprenda meu senhor, aprenda que a vida na realidade é feita da dor. É feita dos cortes e de como você os cura. É mentira, meu senhor, pura mentira...
- Mas que rebeldia, pequena! Que houve contigo? Machucou-se no caminho?
- Você não entenderia, ninguém entenderia... Sou eu, sou... só eu.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Bom Menino

Só quer o doce, a atenção, a caridade. 
Piedade, por nunca ter tido amor na verdade.


Corre solto, descalço, destemido.
Brilho nos olhos, o espírito desprendido.


Nada sabe, nada sente, desde então.
Nunca se importou, nunca tocaram-lhe o coração.


Não vasculhou por amor em nenhum lugar
Não possui o tal talento para amar.

É simples, fácil entender,
O menino só não quer crescer.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Ira.

Foi brotado da mentira.
Foi brotado da mentira.
Foi brotado da mentira.
Foi brotado da mente.
                                 Ira.
                               

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Mais Um Pedido

  Tantas ilusões, tantos panos quentes tentando amenizar a dor, tantos sorrisos engolidos junto com o choro, tanto café derramado em meio aos soluços, tantas estrelas perdendo o brilho juntas...
  Já nem sei mais como me desculpar. São os mesmos erros. Faço questão de andar pelos mesmos corredores, seguir a mesma linha, olhar sempre pro mesmo lado. E caímos sempre na mesma posição. Nosso mundo gira sempre igual... No fundo, no fundo, estamos cansados. Só cansados. Essa vida não tem nos dado as recompensas que esperamos, não sorrimos mais do jeito que desejávamos, não temos mais os abraços perfumados que gostaríamos.
  A distância nos faz parecer menos ternos, mais desimportantes, ela desgasta nossos laços e abate nossas expressões. Mas eu te peço, te peço com todo amor que me cabe, não vá embora agora, não me dê as costas sem me deixar falar o que guardei por tanto tempo.

Pela Última Vez.

  Eu realmente estava me curando. Tudo doía menos, o mundo estava sépia através dos meus óculos, e o ar quente era doce. Saí da cama, comecei a andar devagar, tentei respirar fundo por algumas vezes e até sorri um pouco. O meu mundo longe, bem longe de você estava rodando com calma, me dando um tempo para fugir do desconforto da desolação moral que você deixou por aqui...
  Encontrei uma luz, um ponto de luz... Um farol para me guiar, para me encontrar. Com uma luz fraca, já desgastada pelas mesmas consequências que eu. O farol girava sem pressa, sem vontade de girar... Fui me aproximando devagar, andando na ponta dos pés para não me cortar no caminho. Admirava aquele mesmo farol de longe sem deixá-lo saber da minha vontade de correr até ele.
  Mas então você voltou, aparaceu por aqui, simplesmente invadiu minha falsa paz como um novo alguém e me tocou sem permissão. Chocou sua pele contra a minha, fundiu nossas essências sem ao menos dizer o que devia. O calor dos seus lábios me tirou do chão como sempre. Mas dessa vez... Dessa vez seus olhos não brilhavam. Onde estava aquele mesmo menino destemido, sonhador, com olhos negros nascidos de um eclipse? Onde estava meu anjo negro que me embalava em meio aos sonhos ruins? Aonde foi parar aquele doce olhar que me fez iludir por tanto?
  Não era possível. Não consegui acreditar. A chama da sua voz rouca realmente estava se apagando, sua cor pálida era ainda mais opaca. Seu cheiro se perdeu em meio ao caminho... Faltava pouco, bem pouco, para eu te perder de vez.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Flores Mortas

Você não pode ver. 
As manchas do sangue que meu coração não vai mais bombear. 
Você não pode ver.
As cicatrizes adiantadas para diminuir a dor. 
Você não pode ver. 
As flores mortas que eu ainda guardo. 
Você não pode ver. 
As unhas roídas de ansiedade, contando os minutos para fugir. 
Você não pode ver. 
As olheiras fundas de noites interrompidas. 
Você não pode ver.
A cinza dos cigarros no canto da janela. 
Você não pode ver. 
Os fios de cabelo cortados que caíram aos pés da penteadeira.
Você não pode ver.
Minha pele lanhada pela agonia.
Você não pode ver.
A dor agarrada na minha garganta.


Você pode, não ver.
Pode não me ver.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Agridoce

  Já estou me tratando. Me cuidando, me curando. Num processo lento e solitário, sutil e eficaz. Troquei sentimentos agressivos, por outros, pouco mais passivos. Seu lago escuro e profundo, se transformou em um céu negro, cheio de estrelas que brilham, brilham muito, não mais por mim, mas ainda têm a mesma intensidade em sua luz. 
  Enquanto eu me abrigo, num horizonte limpo, afastado das lembranças e das cores, você vai traçando suas linhas finas em outros colos. Marcando sua cor em outras peles, tocando a mesma música, com ritmos diferentes.
  Mas tudo bem... Vou girar meu mundo devagar, reaprender a respirar, recriar minha fortaleza pra um dia voltar a andar sobre o mesmo vidro fino sem sentir insegurança.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mais uma vez, amor.

  Quem sabe, nem seja amor. É... Vai ver nem mesmo era amor. Quem sabe, era só mais alguém passeando pela minha cabeça... Vai ver, dei importância demais a coisa pouca. 
  A parte mais irônica de tudo é saber que você nem liga. Que você realmente não se importa. Irônica? Triste. Saber que por mais que eu mova o mundo por você, você simplesmente me quer bem. Nada de amor, nada de lealdade, nada de apego. 
  Carinho... É só isso. Carinho. De que adianta carinho, se por dentro, se aqui, no fundo eu preciso de muito mais? Droga, que droga você é. Vício que eu não posso largar ainda. Eu realmente preciso de você. Da sua cor pálida, dos seus arrependimentos, da sua sombra, do seu descaso. Preciso desesperadamente. A cada minuto.
  Morreria. Sim, claro, óbvio. Morreria por você. Com você. Não me importa. Só quero um pedaço meu aí dentro. Quero que você mais do que me queira bem, sinta minha falta. Me procure por todo canto. Corra descalço sentindo as dores de tentar me encontrar. Assim como eu senti. Tenta... Pelo menos tenta sonhar comigo mais uma vez.
  Amor ou não, falta muita coisa em mim longe de você.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012





Tão distante,
Tão difícil.

Muito amargo,
Muito forte.

Um tanto
des
confortável,

Sem você aqui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Uma explicação ao mesmo doce Daniel:

  Não Daniel, se pudesse não viveria para sempre. Nem mesmo ao seu lado. Eu quero sim morrer. Algum dia... Algum dia eu quero me deitar sobre todo o passado e abrir meus olhos. Abrir os olhos para o que eu não pude ver enquanto vivia. Dar razão a explicação nenhuma que me deram, ou que deixei de descobrir.
  É tudo tão pequeno... Com tão pouco valor... Não há motivos para tentar um 'para sempre'. Não há porque se prender a nada por aqui. Será que você não percebe? Não vê que nada disso vale a pena?
  Quero não ter mais pendências. Quero que de repente, tudo acabe. Acabe rápido, sem que me dê conta. Tanto a parte boa como a ruim. Quero poder não sentir, não sentir mais nada nunca mais. Quero poder matar meus pensamentos aos poucos, até não restar mais nenhum... Quero sim algum dia, estar vazia, oca por dentro. Simplesmente parar de funcionar.
  Afinal, a eternidade não me serviria de qualquer modo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

E então eu acordei.

  Eu acordei cansada da vida. Cansada da minha vida. Cansada de respirar o mesmo ar, cansada de rodar no mesmo sentido, cansada de ver as coisas caírem sempre na mesma posição.
  Cansada de ouvir as pessoas gritando os mesmos refrões sem ao menos saberem o real significado deles. Cansa de ver sentimentos escorrerem pelo ralo durante banhos mal tomados. Cansada de usar todas as armas e todas as drogas sem obter prazer. Cansada de sentir a mesma dor interna das mesmas decisões mal pensadas. Cansada do mesmo gosto amargo todos os dias, depois de um café frio. Cansada do mesmo Sol insensível castigando multidões desconhecidas. Cansada da mesma propaganda sem nexo em prol de um mal comum. Cansada da mesma cor pálida, falsamente adocicada em rostos seletos.
  Estou cansada de ter que vestir um velho fardo, que não me acomoda. Cansada de ver o dia chegar, e pensar que o ontem já se deitou. Cansada de ser pequena demais para alcançar o que eu quero. Cansada de abrir os lábios e não escutar som algum. Cansada de me segurar forte demais e me rasgar. 
  Cansada de tanta discrição, tanta sutileza, tanta cautela para não acordar ninguém. Cansada de andar na ponta dos pés e sentir dor entre os dedos. Cansada de esperar por um sorriso que nunca, nunca mais vai voltar. Cansada de desacreditar das minhas próprias palavras. Cansada de calçar os mesmos sapatos desde sempre.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carta a Daniel.

  Se pensar em se aproximar, mude de ideia. Caso pense, que vir me abraçar será bom, esqueça. Não pense que porque eu choro agora, quero que alguém venha secar minhas lágrimas. 
  Não me entenda mal... Não é arrogância, muito menos quero ser rude. Só quero que entenda que me amar agora não vai te fazer bem. Não quero amor nenhum agora, não quero alguém se preocupando com meu descuido contínuo. Então doce Daniel, vá viver sua vida, começar a construir um futuro agradável para você e saiba, que não te peço isso por mal. Só não quero te ver se machucando.
  Você, só você é certo para mim. Mas agora, agora é a hora errada... Não apareça agora. Eu te amo de verdade, vejo cada pedacinho de você se encaixar em mim, mas me deixe errar. Por favor, me deixe andar descalça e cortar os pés. Eu preciso viver antes de me unir em um "para sempre" mentiroso com você.
  Quem sabe, mais tarde, depois que o Sol se pôr, eu apareça por aí, pra te convidar a fazer parte da minha vida.

Até tudo acabar

  Sabe, nada precisa fazer muito sentido para que eu acredite. Nada precisa ser muito certo ou perfeito pra ganhar minha atenção...
  Não preciso de todo o conforto nem todo o carinho. Não preciso que me olhe e me diga o quanto gosta de mim ou o quanto me quer bem. Não preciso que venha até aqui saber como eu estou, muito menos que fique parado, chorando, me assistindo ir embora sem nem olhar para trás.
  Não quero que repare que eu cheguei mais cedo pra te ver por mais tempo ou que escreva dezoito poemas sobre o meu rosto. Não quero que reze por mim ou pense dez vezes antes de mandar um 'sinto sua falta' por sms.
  Só o que eu quero, só o que eu preciso, é que você deixe eu fazer isso por você. Pelo resto da minha vida.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Chuva

  A maquiagem dos olhos estava borrada. As lágrimas estragaram o contorno negro de suas pálpebras. O cabelo estava embaraçado, desprendido e selvagem, assim como seu coração. Os pés descalços e suas unhas rubras como sangue, contrastando com a pele branca intocada. Os lábios entreabertos apoiavam um cigarro de marca barata e guardavam um brilho perolado do que antes fora o batom mais convidativo e provocativo possível.
  O cinza dos olhos se perdia lá fora, através da janela. Cotovelos apoiados no parapeito, que não lhe passava nenhuma segurança. Seu corpo nu fazia o mundo todo parecer menos atraente. Tinha seu próprio brilho durante a noite. Sua própria sinfonia.
  Batia levemente o cigarro na janela e assistia as cinzas alaranjadas caírem os onze andares ao encontro do chão e irem se ofuscando pelo trajeto.
  Não queria pensar em nada, mais nada, não queria lembrar do que vira, do que ouvira, do que sonhara, do que sentira. Queria trancar dentro de si tudo o que tinha acontecido. Esconder tudo lá no fundo, lá dentro, antes que seus pensamentos mais sãs resolvessem despertar. Uma brisa um pouco mais fria, que a relembrava da solidão, invadia sua janela, e então, mais uma lágrima descia pelas maçãs do rosto em direção a seu pescoço. Passava pela clavícula perdendo forças, até que uma outra chegava para fortalecê-la, e então mais outra, e mais outra, e assim as lágrimas se perdiam em seu ventre. Sentia os soluços chegarem à sua garganta sem perdoarem-na.
  Decidiu parar de chorar. Secou os olhos com as costas da mão, deixando marcas pretas entre os dedos. Respirou bem fundo e mordeu o lábio inferior, na tentativa de evitar mais soluços e estancar as lágrimas.
  O ar ficou pesado. Uma brisa úmida passou por seus cachos mal feitos e ela fechou os olhos. Rezou silenciosamente para que chovesse. Que chovesse por dias e dias. Para que a chuva alagasse ruas e vielas, impossibilitando as pessoas de saírem. Que ela se sufocasse dentro de si mesma, enquanto a água divina escorresse por sua vidraça. Que todo o resto, todo pedaço rejeitado do paraíso caísse com essas gotas.
  Um fio de luz já aparecia no horizonte. O céu não era mais tão escuro, o mundo lá fora não era assim tão podre, seus problemas não eram tão significativos quanto pareciam e seus cortes já pareciam querer sarar. Acendeu mais um cigarro e esticou os braços para fora da janela. Queria sentir o primeiro traço de calor da manhã. Então, uma única gota... Uma gota solitária beijou a ponta de seus dedos.
  Seria esse, o começo de um recomeço...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cinza

  Não lavei a roupa. As compras ainda estão nas sacolas. O café velho ainda marca o fundo da sua xícara, borrada com meu batom pêssego. Os móveis da sala ainda formam um semi-círculo para dançarmos depois do jantar. Os cinzeiros estão lotados e a pia ainda pinga no mesmo ritmo. A TV está fora da tomada, assim como o rádio. O único som que se escuta é o teclar da máquina.
  Meu cabelo despenteado se embola em torno de um grampo que o mantém no alto, deixando meu pescoço livre para que eu possa respirar. As unhas roídas caídas pela mesa remoem minha insegurança e minha anciedade, banhadas pela cafeína de toda a bebida que consumi. Olheiras fundas vigiam meus olhos para não deixá-los enxergar demais.
  O tempo passa, eu nem me importo mais. Tirei a pilha dos relógios. Vem dia, vira noite, madrugada e manhã, e eu nem me mexi. Nada mudou. Os sinos batem no mesmo ritmo, as antenas sintonizam os mesmo canais, os livros estão marcados nas mesmas páginas. Nada, nada mudou. A casa tem o mesmo cheiro, as cortinas a mesma cor, a água a mesma temperatura e a campainha o mesmo som.
  Depois de te ver ir embora, aqui dentro, tudo continua cinza.
  


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um Outro Alguém

  Difícil de acreditar. Difícil de fazer meu coração entender. O cérebro já sintetizou, a mensagem já entrou. Mas o coração não quer aceitar. Não quer conviver com esse fato. Parece mentira... Quem dera fosse.
  Tenho certeza, pelo menos espero, que seu novo amor vá cuidar de você. Que seu novo amor saiba bagunçar seu cabelo pra te dispersar dos pensamentos errados, que seu novo amor consiga te abraçar por cima dos ombros como você gosta e que ele saiba fazer o mesmo carinho na nuca que eu fazia em você.
  De verdade, quero que seu novo amor entenda que quando você sai e deixa alguém falando sozinho, não é pra irritar, ou magoar. É só pra não piorar a discussão. Espero que seu novo amor aprenda a cantar pra você todos os blues que cantávamos juntos. Espero que seu novo amor também faça a cada dia um poema mentalmente sobre o simples fato dos seus olhos serem tão penetrantes e destemidos.
  Que seu novo amor também pare meio mundo só para te ver. Que seu novo amor também passe exatos 16 dias sem sair da cama pelo simples fato de não poder te ver e que ele faça tudo isso e não te conte para não te deixar mal. Que ele te ame bastante a ponto de estar passando a maior barra e não te contar nada, para não te preocupar.
  Só espero que você tenha ido embora, viver com um alguém que saiba a hora de se calar e assistir você chorar só te acalentando pelo olhar. Alguém que não reclame das suas manias sem sentido e do seu mau humor nas quartas-feiras. Alguém que passaria o resto da vida simplesmente assistindo você crescer e rindo à toa, só por poder estar ali, bem perto.
  Um alguém, que assim como eu, reze todas as noites, sem exceção, para que no final, no final de tudo mesmo, seu lugar no paraíso esteja guardado. E você se perca por lá. Encontre a paz que tanto procurou.
  Mas sabe, se esse seu novo amor não for tudo isso, não for nada disso, que você pelo menos seja feliz. Encontre a felicidade em simplesmente olhar para ele a cada fim de tarde. A mesma felicidade que eu um dia vi em seus olhos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Eternidade

"- Você me ama?
 - Amo.
 - Para sempre?
 - Não. 
 - Por que não?
 - Não acredito no para sempre. Nada é eterno durante a vida... A única coisa eterna é a morte. É na morte em que confio. É o único ponto imutável da vida.
 - Quer dizer que me amará até a morte?
 - Sim. Eu te amo. Agora. Depois não se sabe.
 - Pois eu não. Te amo mais do que posso suportar. Te amo mais do que preciso de ar. Um amor tão grande, que morreria por você. Morreria para salvar a eternidade desse meu sentimento.
 - E por que não aproveitar o agora? Provar cada gota desse amor, cada voto de admiração. A união de nossos corações. O seu ainda virgem, tão puro, tão doce, bombeando um sangue tão jovem, que poderia beber dele. A união do seu coração ao meu. Um coração maltratado, vendido, prostituído e acabado. Sem suas batidas suaves por perto, tenho certeza de que já teria desistido. Nunca tentaria remendá-lo. Aproveitemos enquanto ainda nos restam os dias de Sol, os acalantos que nos ninam durante a noite. Não vá, fiquemos aqui, sentindo tudo. Só por mais um pouco.
 - Mas e a eternidade?
 - Vivamos a eternidade desse momento."

sábado, 7 de janeiro de 2012

Paraíso

Tenho medo de correr.
Correr e tropeçar.
Tropeçar e cair.

Cair e chorar.
Chorar e soluçar.
Soluçar e perder o ar.

Perder o ar e sentir dor.
Sentir dor e me recolher.
Me recolher e não me levantar.

Não me levantar e me calar.
Me calar e ver as nuvens chegando.
Ver as nuvens chegando e sentir as primeiras gotas.

Sentir as primeiras gotas e abrir a boca.
Abrir a boca e sentir o gosto do céu.
Sentir o gosto do céu e imaginar o paraíso.

Imaginar o paraíso e sorrir.
Sorrir e perceber um a coração bater.
Perceber um coração a bater e me levantar.

Me levantar e correr.
Correr e fugir.
Fugir e encontrar meu paraíso.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Último amor


  Talvez... Bom, talvez você esteja realmente me evitando. Talvez você esteja querendo não ter que olhar nos meus olhos e admitir o que está acontecendo conosco. Por algum motivo você prefere cegar seus olhos e não assumir que as coisas estão complicadas. De algum modo, talvez prefira manter suas mãos longe de mim e nossos laços partidos. Se trancar no seu mundo e pronto. Ficar lá sentindo minha falta como se a culpa não fosse nossa. Como se o fato de estarmos tão vazios, tão longe um do outro, não passasse de medo.
  Medo de demonstrar o quanto nos queremos, o quanto fazemos bem um ao outro. Sei que você derramou tantas lágrimas quanto eu. Sei que você não dormiu nas noites em que eu também estive acordada. Nós dois sabemos muito bem que todo esse sofrimento, toda essa complicação é desnecessária. 
  Mas então, eu te pergunto, de que adianta tanta insegurança, tanto desencontro, tanta preocupação, se no fundo do que nós precisamos é simplesmente ter um ao outro? Se for para amar com dor, que seja esse então, meu último amor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um breve conselho

  (...) Então você me disse: Sorria! Olhe pro espelho, olhe à sua volta, o que te impede de ser feliz? O que te impede de sorrir? Sorria, vá, alegre-se. Se não for por você, que seja por mim. Deixe-me ver esse sorriso tão gentil que anda escondendo... 
  Chorar pela distância? Chorar pelo mundo não ser como deseja? De que adianta? Ande menina, enxugue essas lágrimas, retoque a maquiagem, recupere seu brilho! Enquanto se ocupa sentindo as dores dessa suposta solidão, o mundo ainda gira no mesmo ritmo de sempre. Enquanto sufoca e apaga suas gargalhadas, o Sol surge e se põe como sempre. Se fechar os olhos com medo durante a tempestade, nunca verá o arco-íris.
  Que tal cessar o sofrimento, a dor, a infelicidade de estar longe do seu amor e finalmente viver? Não se esqueça de que ainda há uma vida pela frente. Uma vida que só você pode guiar. E com certeza não será feita de sonhos destruídos, desilusões, desejos mal feitos ou amargura. Venha, venha sorrir ao meu lado.



domingo, 1 de janeiro de 2012

Tormenta.

  As pessoas se aquietam, se acalmam, se calam, se recolhem aos poucos. Os corações vão batendo mais devagar, as respirações mais profundas, os membros menos agitados, os olhos pendem e se fecham, e então, acabou. Todos mergulham numa hipnose mútua enquanto eu, estou cá a trabalhar a mente.
  Corpo tão imóvel quanto qualquer um, mas minha mente não para. Nenhum segundo. Sempre duvidando, avaliando, pretendendo, confirmando, certo, errado, bom, ruim, agora, depois, agir, esperar, repensar, ignorar, esperar, aguçar, sossegar...
  Nunca se tem paz quando o assunto é o que está dentro da minha cabeça. Uma mente não muito sã, talvez não muito confiável, mas é daqui que vêm as melhores ideias. Dormir, descansar o corpo, não é prioridade agora. O mundo todo pode descansar, mas eu me recuso. Quando o que você procura está guardado dentro, quando a resposta, a solução, só você pode encontrar, não há motivos para se importar com o por fora.
  O que eu quero ver é o interior das pessoas. Pouco me importa a casca. O que eu quero é invadir cada ideia, cada interpretação do mundo. Ideias divergentes, conflitos mentais. Discussões, argumentos, opiniões. Quero gente pensante, gente com sede, gente com fome, não gente com sono. Não gente cansada demais para pensar, para progredir.
  Os melhores, não dormem. Nunca.